LAUREN AMARAL
expressões racistas pra você esquecer que um dia as disse
"Tem caroço nesse angu"
A expressão, que significa que alguém estaria escondendo algo, tem sua origem em um truque realizado pelos escravos para melhor se alimentarem. Se muitas vezes o prato servido era composto exclusivamente de uma porção de angu de fubá, a escrava que lhes servia, por vezes, conseguia dar um jeito de esconder um pedaço de carne ou alguns torresmos embaixo do angu. A expressão nasceu do comentário de um ou outro escravo a respeito de certo prato que lhe parecesse suspeito.
"A dar com pau"
“Pau” é um substantivo utilizado em algumas expressões brasileiras, e tem sua origem nos navios negreiros. Muitos negros capturados preferiam morrer a serem escravizados e, durante a travessia da África para o Brasil, faziam greve de fome. Para resolver a situação, foi criado então o “pau de comer”, uma espécie de colher que era enfiada na boca dessas pessoas aprisionadas por onde se jogava a comida (normalmente angi e sapa) até alimentá-los enfim. A população incorporou a expressão.
"Disputar a nega"
Essa expressão, que significa disputar mais uma partida de qualquer jogo para desempatá-lo, possui sua origem não só na escravidão, como também na misoginia e no estupro (o que espanta que até hoje seja utilizada com tanta naturalidade). Sua história é simples e intuitiva: quase sempre, quando os senhores do passado jogavam algum esporte ou jogo, o prêmio era uma escrava negra.
"Nas coxas"
A origem da expressão, que quer dizer algo mal feito, realizado sem capricho, é imprecisa, e não há consenso sobre se ela viria de fato do período da escravidão. De todo modo, há vertente mais popular afirma que a expressão viria do hábito dos escravos moldarem as telhas em suas coxas que, por possuírem tamanhos e formatos diferentes, acabavam irregulares e mal encaixadas.
"Espírito de porco"
Ainda que a origem da expressão venha da injusta má fama associada ao animal, por uma ideia de falta de higiene, sujeira e impureza, tal má fama é oriunda de princípios religiosos. Durante o período escravocrata, os escravos se recusavam e eram obrigados a matar o animal, para que servisse de alimento. A recusa vinha porque se acreditava que o espírito do animal abatido permaneceria no corpo de quem o matasse pelo resto de sua vida e, para complementar tal crença, a incrível semelhança que o choro do porco possui com um lamento humano tornava o ritual ainda mais assustador.
"Para inglês ver"
Essa expressão tem sua origem na escravidão, e também no mal hábito ainda atual brasileiro de aprovar leis que não “pegam” (que ninguém cumpre e nem é punido por isso). Em 1830, a Inglaterra exigiu que o Brasil criasse um esforço para acabar com o tráfico de escravos, e impusesse enfim leis que coibissem tal prática. O Brasil acatou a exigência inglesa, mas as autoridades daqui sabiam que tal lei simplesmente não seria cumprida – eram leis existentes somente em um papel, “para inglês ver”. Como exemplo disso, a lei que aboliu a escravatura, que não garantiu direito algum e perspectiva nenhuma para a vida dos negros brasileiros.
"Bucho Cheio ou Encher o bucho"
Expressão mais comuns em Minas, eram usadas tanto pelos escravos quanto por seus exploradores, evidentemente que com outra conotação da que se usa hoje. Atualmente significando estar bem alimentado, de barriga cheia, na época significavam a obrigação que os escravos que trabalhavam nas minas de ouro possuíam de preencher com ouro um buraco na parede, conhecido como “bucho”, para só então receber sua tigela de comida.
"Meia tigela"
A partir da expressão anterior, a história segue, dando origem a expressão “meia tigela”, que significa algo sem valor, medíocre, desimportante. Quando o escravo não conseguia preencher o “bucho” da mina com ouro, ele só recebia metade de uma tigela de comida. Muitas vezes, o escravo que com frequência não conseguia alcançar essa “meta” ganhava esse apelido. Tais hábitos não eram, porém, restritos às minas, e a punição retirando-se parte da comida era comum na maioria das obrigações dos escravos.
"Lavei a égua"
Por fim, a expressão “lavar a égua”, que quer dizer aproveitar, se dar bem, se redimir em algo, vem também da exploração do ouro, quando os escravos mais corajosos tentavam esconder algumas pepitas debaixo da crina do animal, ou esfregavam ouro em pó em sua pele. Depois pediam para lavar o animal e, com isso, recuperar o ouro escondido para, quem sabe, comprar sua própria liberdade. Os que eram descobertos, porém, poderiam ser açoitados até a morte.
“Cor de pele”
Aprende-se desde criança que “cor de pele” é aquele lápis meio rosado, meio bege. Mas é evidente que o tom não representa a pele de todas as pessoas, principalmente em um país como o Brasil. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2014, realizada pelo IBGE, 53% dos brasileiros se declararam pardos ou negros.
“Doméstica”
Negros eram tratados como animais rebeldes e que precisavam de “corretivos”, para serem “domesticados”.
“Estampa étnica”
Estampa parece ser, no mundo da moda, apenas àquela criada pelo olhar eurocêntrico. Quando o desenho vem da África ou de outra parte do mundo considerada “exótica” segundo essa visão, torna-se “étnica”.
“Mulata”
Na língua espanhola, referia-se ao filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua. A enorme carga pejorativa é ainda maior quando se diz “mulata tipo exportação”, reiterando a visão do corpo da mulher negra como mercadoria. A palavra remete à ideia de sedução, sensualidade.
A palavra vem de “mula”, que é a junção entre o burro e a égua, ou seja: dois animais diferentes. Híbridos, que não podem reproduzir. Usada para denominar pessoas que nasceram de um pai negro e uma mãe branca (ou vice-versa), tem exatamente o mesmo sentido de falar da Mula: uma pessoa que nasce de dois tipos diferentes. Isso iguala essas pessoas aos animais, tira-lhes a humanidade.
“Cor do pecado”
Utilizada como elogio, se associa ao imaginário da mulher negra sensualizada. A ideia de pecado também é ainda mais negativa em uma sociedade pautada na religião, como a brasileira.
“Samba do crioulo doido”
Título do samba que satirizava o ensino de História do Brasil nas escolas do país nos tempos da ditadura, composto por Sérgio Porto (ele assinava com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta). No entanto, a expressão debochada, que significa confusão ou trapalhada, reafirma um estereótipo e a discriminação aos negros.
“Ter um pé na cozinha”
Forma racista de falar de uma pessoa com origem negra. Infeliz recordação do período da escravidão em que o único lugar permitido às mulheres negras era a cozinha da casa grande.
“Moreno/Morena”
Racistas acreditam que chamar alguém de negro é ofensivo. Falar de outra forma, como “morena” ou “mulata”, embranquecendo a pessoa, “amenizaria” o “incômodo”. As pessoas racistas não conseguem separar conceitos como, existem duas pessoas, uma negra e uma branca. Ambas possuem o mesmo nome. Lauren, a branca, ah beleza, se referiu a ela como tal. Lauren, a negra. Nossa, mas não sei quem é.. Aquela.. E esfrega a mão no braço, morena/moreninha sabe? Qual o motivo de ter que especificar quando a pessoa é negra, e quando a pessoa é branca, ninguém dizer, aquela ~branquinha~ lá? O motivo a gente sabe né.
“Negra/Negro de traços finos”
A mesma lógica do clareamento se aplica à “beleza exótica”, tratando o que está dentro da estética branca e européia como aceitável.
“Cabelo ruim”
Fios “rebeldes”, “cabelo duro”, “carapinha”, “mafuá”, “piaçava” e outros tantos derivados depreciam o cabelo afro. Por vários séculos, causaram a negação do próprio corpo e a baixa autoestima entre as mulheres negras sem o “desejado” cabelo liso. Nem é preciso dizer o quanto as indústrias de cosméticos, muitas originárias de países europeus, se beneficiaram do padrão de beleza que excluía os negros.
A questão da negação da nossa estética é sempre comum quando vão se referir aos nossos cabelos Afros. São falas racistas usadas, principalmente na fase da infância, pelos colegas, porém que se perpetuam em universidades, ambientes de trabalho e até em programas de televisão, com a presença negra aumentando na mídia. Falar mal das características dos cabelos dos negros também é racismo.
“Não sou tuas negas”
A mulher negra como “qualquer uma” ou “de todo mundo” indica a forma como a sociedade a percebe: alguém com quem se pode fazer tudo. Escravas negras eram literalmente propriedade dos homens brancos e utilizadas para satisfazer desejos sexuais, em um tempo no qual assédios e estupros eram ainda mais recorrentes. Portanto, além de profundamente racista, o termo é carregado de machismo.
“Denegrir”
Sinônimo de difamar, possui na raiz o significado de “tornar negro”, como algo maldoso e ofensivo, “manchando” uma reputação antes “limpa”.
“A coisa está preta”
A fala racista se reflete na associação entre “preto” e uma situação desconfortável, desagradável, difícil, perigosa.
“Serviço de preto”
Mais uma vez a palavra preto aparece como algo ruim. Desta vez, representa uma tarefa malfeita, realizada de forma errada, em uma associação racista ao trabalho que seria realizado pelo negro. Visto que a pessoa negra é tida como intelectualmente inferior pela sociedade, portanto, seu trabalho não é digno de ser algo apresentável. Isso tem suas raízes em diversos momentos da história. Como por exemplo, no Brasil, era permitido que os homens brancos se alfabetizassem e somente eles. Os homens negros eram usados pela sua força física e somente ela, o seu intelecto era desvalorizado.
“Ovelha negra”
Essa expressão é muito usada para designar uma pessoa que se destoa das outras de um mesmo grupo. É a pessoa “diferente”, pois todas as ovelhas são brancas, então uma “negra” seria estranha. Mas, por que usar essa comparação? Serve para reforçar que o normal é ser branco e ser negro é diferente e esquisito. E sabemos que isso não é real.
“Mercado negro”
O mercado negro é aquele que promove ações ilegais, e mais uma vez é a palavra negro sendo usada com conotação desfavorável. O negro, na expressão, significa ilícito.
“Inveja branca”
A “inveja branca” como sendo a inveja boa, “positiva”.
“Barriga suja”
Outro termo que faz relação à origem é usado quando a mulher tem um filho negro. Se ela teve um filho negro, algo impuro – como uma “barriga suja” – explica esse fato. É uma das que mais me causa desconforto.
“Amanhã é dia de branco”
Qualquer pesquisa rápida no Google mostrará mais de uma origem para essa expressão, e a maioria negando que ela tem algum cunho racista. Porém, vivemos em um país onde a escravidão do povo negro durou mais de 300 anos, e os escravos, mesmo sendo forçados a trabalhar, geralmente eram vistos como “vagabundos”.
As consequências disso duram até hoje, o negro é sempre visto como a pessoa que faz “corpo mole”, aquele “malandro” que não faz nada. Inclusive, entre as opiniões que mais afloram quando o assunto é cotas sociais para negros, a de que não existe esforço da nossa parte é a mais frequente.
“Boçal”
A palavra quer dizer “rude, grosseiro, imbecil ou ignorante”. Mas a sua origem é de assustar: ela era usada para designar os negros vindos da África que ainda não sabiam se comunicar na língua portuguesa. Por eles não conseguirem usar o português, eram vistos como menos instruídos, por isso a expressão logo se popularizou e começou a ser usada para designar qualquer pessoa que não tenha instrução.
“Judiar”
Essa palavra é antissemita. Judiar significa “maltratar”, “ser mal” (como um judeu seria). A palavra tem ligação direta com os judeus e dá a entender que quem é judeu é malvado.
“Aquela nega”
Particularmente, odeio essa expressão. As pessoas a usam a torto e a direito quando vão se referir à alguém que não especificam o nome “porque aquela nega lá, fez isso e aquilo”, e porque não usar “aquela branquela lá fez isso e aquilo?
É lógico que existem inúmeras outras expressões que apontam o racismo no cotidiano, e, infelizmente, inúmeras pessoas, mesmo sabendo dos fatos e tendo acesso às explicações e informações, vão dizer que tudo é pura banalidade e, provavelmente, continuar usando essas palavras e expressões. Quando apontamos racismo, a tendência é ouvirmos algo como “não sou racista, tenho amigos e/ou parentes negros”, ou ainda “eu conheço um negro e ele não liga”.
O mais irônico é que, quando um negro reproduz conceitos racistas, que vão desde achar que não existe racismo a não se incomodar de ser chamado de moreno, ou achar desnecessárias todas essas explicações aqui dadas, ele logo é taxado como sendo “um negro de alma branca”. Resumindo: usam uma fala racista para justificar seu comportamento racista.
É necessário empatia e consciência para que essas palavras e expressões sejam abandonadas de vez. A intenção aqui é simples: ENEGRECER ideias.